Archive for the 'Poesia' Category

O Lixo
Setembro 9, 2008

Batia o vestido de domingo na pedra.
Sobre ela, urubus belos planavam.
Um octilhão, o dobro ou mais de olhos,
Todos rezando coisas escondidas,
Uma igreja plumada a rodar no espaço
Caindo como um sinal de satélite, um hiato
De almas sobre o sabão da mulher
Que inventei em meu ato Nero de me dizer
Cheio de carne e saponáceos.
O vestido é de [...]

Fragmento no. 7
Setembro 5, 2008

Porque, entre Homens e mortos,
Estamos nós em multidões.
Como máquinas, despertamos mornos
Sob a espera inexata de algo,
Como um pressentimento
Ou uma desesperança.

Poema exagerado e precisosinho
Agosto 25, 2008

Com os olhos do velho na minha cabeça
Eu desci o corredor como quem atravessa uma avenida
Envolvido pelos carros entrei no gabinete e ergui as agulhas
Sobre minha cabeça a foto antiga de um santo
Voltei por mim e apenas por mim
Envolto em sangue dos outros e assepse
Tremendamente humano e calçando luvas de plástico
Eu remendo a carne velha [...]

Da Sobrevivência dos Mais Aptos
Junho 14, 2008

Num instante eterno como numa estante
Minha vida nua ergue-se livro
E eu impresso em letras úmidas
Caminho irritado sob o meio-dia
Goela abaixo na farmácia
Enquanto famintos me espreitam
Pedindo moedas goela acima
Vômito na lajota vômito
E a mãe indignada acena
Abro minha carteira como um punhal
E num instante caminho coberto de caixas
De tarjas vermelhas de tarjas azuis de tarjas pretas
Uma árvore [...]

A Glória da Manhã
Junho 3, 2008

Nossos olhos unidos, irmãos,
Ergam as mãos, agradeçamos
Em coro, e nosso vômito
Subirá aos céus em uma só voz.
Eu vos digo:
A manhã gloriosa se ergue perante meus olhos fundidos.
E, porque tenho fome,
Ela me mostra os homens e as mulheres.
Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres.
João o será entre os homens. [...]

IML
Junho 3, 2008

Não sei o que há
Sob a pele deste rapaz.
Vê-se que o dia, espesso,
É toda a sua pelugem,
Colorindo-lhe como uma
Plumagem, porém mais
Violenta, pois que é
Tomada por vozes.
Contudo, o que mais intriga
São as janelas abertas espalhadas
Em seu sangue,
Por onde um ar úmido entra,
Carregando o canto de um pássaro,
Feito oxigênio a invadir suas veias.
Senti-me no sopé de uma [...]

Torcicolor
Junho 1, 2008

Mantinha os olhos fixos no sol,
Como que a buscar lucidez.
Estava a anos na mesma posição,
Parado, a face voltada para o céu,
Para a estrela que lhe tirara o sono.
Já não havia noite, nem haveria dia.
O sol, em eterno-meio dia,
Queimara-lhe as retinas.
Estava cego, e perseguia a luz
Como quem tem sede,
Feito um girassol.
Há anos sentara sob sua estrela,
A [...]