Archive for the '1' Category

Canto I
Abril 20, 2009

O amor está exposto, cru, no corpo que seguro nas mãos,
Como a noite vai engolindo, lenta,
O cerne do dia, tua pele, num batuque, é o código morfológico
Do que libertaria meu sangue de meus olhos, meus olhos de minha boca,
Minha boca de minha fala, e eu todo esparramado na cama
Sou água a lavar o mármore. Úmido, [...]

Poema Panetone
Dezembro 3, 2008

(Eu te sussurro o poema mais doce e simples, meu amor,
Pois é noite e temos frio,
Pois não há nada mais real que esse pássaro pousado em minhas mãos,
Nenhuma verdade maior que esse pássaro sonhando em meus ouvidos,
E não há o que possuir,
Nem há nada que não possa ser sentido…
Quando eu era um ladrão, minhas mãos [...]

A Galinha
Setembro 12, 2008

Porque ser belo já não é ser inteiro,
E o que foi óbvio está vestido como turvo,
Porque ser aberto se tornou estar denso
E apenas ser já não significa estar puro.
Durante a noite, engoli as fronteiras que ergui
Pela manhã. Vi meus vasos derramados,
Vi a carne empapada de sangue e de alma,
E, na lama, apenas meus dedos moviam-se,
Tateando, [...]

Barbárie
Setembro 10, 2008

Porque me vi livre de repente,
Sem sequer saber do que fui libertado,
Chamei Deus Àquele que supus ter destrancado um suposto cárcere e
Chamei homens àqueles que constatei compartilharem deste vento.
Dei nome a tudo que a areia trazia. A tudo que pude tocar na tempestade.
O que não pude alcançar seguiu intacto, foi levado pelo vento.
Amanhã, chegarei em [...]

Morfologia
Agosto 31, 2008

(…) Enquanto o sol,
Uma galinha amarela a espernear,
Queimava a língua em suas línguas,
Estavam todas empoeiradas na estante
Durante o ônibus que lhes levava até uma
Inteligência inútil e uma sabedoria impossível
Enquanto pensavam nas frases que nunca viveriam
Mas gostariam de falar
Ah, sim, eu andava de olhos baixos
Fixos no retrovisor
Lado a lado com as carpideiras entranhadas na lata
Como tétano, [...]

Constatação
Agosto 26, 2008

A Realidade tem uma barriga heterogênea.
Grávida, a balofa implora por comida no asfalto,
Enquanto arrota na janela dos carros,
E seu bafo é todos nós.
O vidro das portas sobe elétrico, sincronizado,
Onisciente, quem sabe…

Família
Agosto 26, 2008

Por qual silêncio andará meu corpo
A essa hora da noite da terça-feira mais desnecessária
Que pude conhecer em vida?
Abro as mãos e deixo que o espírito dos porcos
Corra sobre mim
Pois o espírito dos anjos usa lantejoulas
E ri dos que tropeçam por não saberem flutuar sobre a multidão
Eu ergo o dedo médio para o alto enquanto
Meus pés [...]

A Incompleta Fábula sobre Tudo
Agosto 25, 2008

Nos desacordados nos quartos
Os olhos estão calados
Para que a luz não acorde
Nunca acorde
O tudo adormecido que
Espreita desperto com
Mãos de lanternas e canetas
Com o hálito lúcido de
Filas e de carnavais
As hordas de carpideiras que se alinham
Como exércitos na beira do abismo
Entre o dia e o mergulho
Erguem as mãos de súbito
O rei de tudo há de desfilar [...]

Passado no.2
Agosto 25, 2008

Eu dobrei meus olhos
Até ver em minhas costas
Os pontos que preciso retirar
Como quem revela uma foto
Da sutura
A sutura como um mapa
Em meus sulcos
Como o suco de uma fruta
Bebo essa curva
Esse espelho
Enquanto corro com
Tesouras nas mãos
Como se fossem linhas
E onde toco
Como um açougueiro
Ou uma costureira
Eu decepo coisas enquanto teço outras

Disneylândia
Agosto 21, 2008

Há muito sangue jogado na cama
Jorrado como estrelas do mar que são cuspidas
Do mar e eu choro como um monstro que sangra
Ensopado o gato enrola sua língua na minha e
Eu me engulo ostra
Em minha saliva os barcos voam assombrados
Voam imensos garganta abaixo como quem se atira
De uma cachoeira esôfago estômago intestino
Corrente sanguínea boca das células
Eu [...]

Ninar ou Simples
Agosto 16, 2008

Os monstros estão no escuro
Ele dizia enquanto levantava o filho para o alto em direção à lâmpada
Como se fosse uma estrela e pudesse guardá-lo
De toda sombra que habitasse a casa
Mas era dia
E o sol gemia lento nos andaimes
Enquanto caminhávamos tentando nos ninar
Pais de nós mesmos
Os sapatos breves lúcidos
Inflamavam as articulações dos braços
E era difícil levantar [...]