Os animais dançam do arco da minha porta
Até a linha do horizonte
No escuro da rua as maçãs explodem nas nádegas
Da mulher desconhecida que tangencia seu caminhar
Ao rugir dos motores dos coletivos e dos carros particulares
Onde meu olhar consegue pousar
Os dedos tristes das palavras
Me pedem silêncio
Em meu peito, a criança da ciência arranha as paredes torácicas,
Quer partir o mediastino em sua pressa, quer dar nome a toda minha anatomia,
E se debate e chora e adoece e cresce e aprende palavras e dá os primeiros passos
Enquanto a Vovó Mistério ri de suas tolices e reza seu terço infinito
Ela observa atentamente o apodrecer vívido de meu corpo
Para me banhar das artes sujas e vestir minha roupa de ir à Igreja
Num domingo impossível que jamais raiará
Meu sorriso apócrifo
Traz entre os dentes o evangelho
Dos animais que sangram
Nos álbuns de família
Na violência dos ossos
No cardume de fomes
Na extinção dos peixes e dos pães
No amor correndo nos canos da casa
Na raiz dos prédios
Na geografia dos mercados
Na alma coletiva devorada pelo corpo coletivo
No excremento do universo
Nossa fogueira não resistirá à tempestade que o tempo vomita
Eu agradeço o calor de minha mãe enquanto abraço os ossos do futuro
É um consolo que o sal desta terra também venha de minhas lágrimas
Minha vida é um capilar do mundo
E o sangue é o mesmo sangue
Do coração e dos grandes vasos
E das vísceras, dos músculos
Da face e dos lábios
Da língua
O sangue é o mesmo sangue
Deus deve morar nos pulmões
Eu me junto aos animais e
Juntos dançamos ao redor da fogueira
E do sexo e do trabalho e da sociedade moderna
E das civilizações perdidas
Da virgindade da humanidade em sua maculada concepção
A exaustão é nosso bem coletivo
E eu morrerei homem também
Enquanto as flores permanecerem
Brotando do asfalto.
Muito bom! Parabéns ^^