Vermelho

Para Mirian Cruz

O vermelho escrito em teus cabelos
É o mesmo vermelho de tuas paredes
E nos vasos de teu corpo e de tua casa
Que é tua paleta de cores
O retrato delicadamente retorcido
Dos porcos a correr no cimento
Quilômetros abaixo de tua janela
E no ar que fumas o hálito escuro
Dos que calam sofrem dormem
Disfarça a liberdade que habita
No céu de tua boca no vermelho
De teus lábios pintando o quadro
Em que vaticinas a verdade das mordidas
O silêncio dos inquietos
O riso dos hipócritas
O labirinto das crianças
A dramaturgia dos animais
As plateias em quartos fechados
A infância rosada jaz viva por toda a casa
Como poeira que se espalha
E o sol quer entrar pela janela
Quer entrar em tuas unhas e de fato
Alguns raios escapam em tua risada
Que perfuma a cozinha
Enquanto já pensas em outra coisa
O sono do demônio a morte da substância
A ferida da mãe a mudez do pai
Os astros se debatendo nos círculos do tempo
No banheiro no velho retrato esquecido na lavanderia
No abrigo do lençol na lâmpada queimada
No ovo quebrado no sonho esquecido
No esquecimento induzido na amnésia involuntária
Na inércia coletiva
Na teimosia por justiça sonho e tudo
O mais que já não cabe na casa
O vermelho é um verme que se recusa a corroer
A delicadeza da carne viva
Porque obscura amorfa a paz
Teima em brotar amarga em tua linfa
Conferindo uma cor estranha de dia nascendo
A teus músculos inquietos.

2 Respostas

  1. Acho que eu nunca ganhei um presente tão lindo. Obrigada pelo poema (e pela consulta médica). Eu te amo tanto, Vitor!

  2. Chorando outra vez… Obrigada.

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 158 other followers