Grave e sorridente
Minha alma esfacelada caminha altiva
Entre suas irmãs:
“Nós estamos surdas, ou foi nosso rosto que mudou?”,
Elas se perguntam em silêncio,
Sem que nenhuma boca se abra…
Os poetas da América não estão mortos,
Apenas diluídos,
E caminham no corpo dos edifícios
Ruminando em silêncio a memória
De uma terra bruta que jamais conheceram,
Nem conhecerão as gerações futuras.
O homem livre tem de inventar seu rio,
Desenhar no próprio corpo tão devastado por anatomias
Escatológicas científicas
O sincretismo de nossos deuses racionais e
Místicos.
O amor ainda cresce no ventre da liberdade,
A liberdade ainda está no chão,
E ainda há terra em meu peito,
E meu grito humano ainda suja de terror
As paredes brancas do hospital público ou privado.
Ainda minha boca, mesmo que entre pílulas,
Ainda meus dentes, ainda minha língua, minha glote,
Faringe, laringe, epitélio,
Arrancando o braço dos dentistas,
Engolindo com prazer animal e descendo novamente ao sangue,
Negando o branco,
Sujando a bancada com a arcada dentária
De todos os nossos prazeres.
Eu não me engano: tenho certeza dos homens
No deserto das multidões, mesmo que em exércitos,
Mesmo que em filas, desesperados, gordos,
Redundantes, obscurecidos pelo medo de si próprios,
Pela tristeza escura impressa nos cartazes que gritam “Não existes!”,
E a rua inteira é um canto de negação de nós mesmos:
Ainda assim os homens engolindo em seco sua verve
Alguns com as mãos no céu da boca
Vomitam sua fome arte razão esquecimento perdão
O líquido azul em seus pés é ácido, e tem a cor do céu
Num dia ensolarado e também durante as tempestades
E quem olhar em seus olhos rotos que só parecem doentes
Em sua boca aberta vociferando a morte e os partos
Verá só a si mesmo e
Finalmente desperto,
Seu grito poderá silenciar e ainda assim
Ser.
Belo.