Canto I

O amor está exposto, cru, no corpo que seguro nas mãos,
Como a noite vai engolindo, lenta,
O cerne do dia, tua pele, num batuque, é o código morfológico
Do que libertaria meu sangue de meus olhos, meus olhos de minha boca,
Minha boca de minha fala, e eu todo esparramado na cama
Sou água a lavar o mármore. Úmido, forte e sujo, escorro
Levando tua espuma, levantado feito um deus recém-nascido,
Percorro tua igreja durante a madrugada, inventando o vício
Num milagre sanguíneo, carnavalesco. Eu trago sonho e músculo
Ao teu poema estranho, e faço estancar o rio, cirurgião nu,
Sem saber porquê, sem saber porquê, eu mergulho desprotegido
Em tua pele até tuas vísceras, envolto em comida digerida, fígado,
Bile, glândulas e fogo, eu nunca amei tanto, eu suturo e recorto,
E canto e escrevo em tuas paredes, eu esparramo o que é segredo,
Beijo a mentira e conheço tua verdade, abraçando o corpo
Como o silêncio que se salva do que é grito, ou o grito
Que se esconde no silêncio, ou um homem que se agarra
À realidade no meio da multidão, aliás, isso, isso.
Exposto, cru, o amor no corpo que me segura pelas mãos.

There are no comments on this post

Leave a Reply