(Eu te sussurro o poema mais doce e simples, meu amor,
Pois é noite e temos frio,
Pois não há nada mais real que esse pássaro pousado em minhas mãos,
Nenhuma verdade maior que esse pássaro sonhando em meus ouvidos,
E não há o que possuir,
Nem há nada que não possa ser sentido…
Quando eu era um ladrão, minhas mãos eram engraçadas.
As prostitutas sorriam quando eu fazia aparecer moedas em seus ouvidos.
Quando violinista, minhas mãos também eram engraçadas,
Faziam sorrir os reis, gordos e bobos, enquanto eu fazia malabares com vasos delicados,
E mesmo as crianças riam de minhas mãos engraçadas quando fui elefante,
E era só erguer as patas e a tromba e o mundo inteiro ria, circo, palhaço, infante.
E quando fui um par de mãos, minhas mãos engraçadas regiam um coral de dedos
E faziam as linhas velhinhas dançarem valsa nas palmas das mãos. As desdentadas sorriam ao sonhar…
É tudo corte e costura, essa vida, essa vida imensa,
Esses anéis em todos os meus dedos,
Corte e costura, os dias bordados,
Esse esquecimento do que antes era juramento,
Do poema que anunciei como um presente: )
“POEMA EM UM POEMA
Um sonho bordado em um barco
Bordado em uma noite bordada na chuva
Bordada nos olhos do meu amor
Que sorri e toca o dia,
Minhas mãos.”
(Doce o poema, doce o sussuro do poeta que grita. Hoje nasci
Com voz de fazer ninar e com a carne boa e barata dos panetones…)