A Galinha

Porque ser belo já não é ser inteiro,
E o que foi óbvio está vestido como turvo,
Porque ser aberto se tornou estar denso
E apenas ser já não significa estar puro.

Durante a noite, engoli as fronteiras que ergui
Pela manhã. Vi meus vasos derramados,
Vi a carne empapada de sangue e de alma,
E, na lama, apenas meus dedos moviam-se,

Tateando, lentos, a superfície do ninho.
Os ovos misturavam-se à palha,
Intactos e amorfos. Dentro da casca,
Os animais esqueciam se eram pássaros,

Lagartos ou alguma espécie de peixe.
Conforme envelheciam, se tornavam apenas devir.
Envolvi meu corpo ao redor da ninhada,
E os embriões adormeceram no calor da espera.

2 Responses

  1. Um dia uma pessoa ingênua me disse: “É muito irônico que o Vitor meça um metro e noventa de altura”. Eu pensei naquele exato momento, mas como? se o Vitor, enormidade que é, vive a recolher retalhos, remendos, excertos, pedaços de gente, cabeças, pernas, joelhos, cabelos, rimas, unhas — do mundo, para ver se adorna aquela alma escapatória dele, que morre de frio, querendo chocar tudo que existe…

  2. Achei ótimo o resultado deste poema. Conseguiste, mesmo o emparedando nestes quartetos, conservar teu estilo natural, aproveitar-se dos saltos das estrofes e dos versos para outros efeitos estilísticos e, talvez o mais interessante, escapar da repetição da forma de poemas como “A Sobrevivência dos Mais Aptos” ou “O Lixo”, que, sem a devida atenção, pode cair na banalidade da “mesmice” ou mesmo tornar-se um salva-vidas na falta de criatividade. Ainda assim, os poemas que citei são geniais da forma que são, não tem jeito – não que o inverso seja verdadeiro, vá lá! Mas tomar consciência de outras alternativas de expressão, como fizeste neste, é belo e construtivo. Para ambas as partes.

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