(…) Enquanto o sol,
Uma galinha amarela a espernear,
Queimava a língua em suas línguas,
Estavam todas empoeiradas na estante
Durante o ônibus que lhes levava até uma
Inteligência inútil e uma sabedoria impossível
Enquanto pensavam nas frases que nunca viveriam
Mas gostariam de falar
Ah, sim, eu andava de olhos baixos
Fixos no retrovisor
Lado a lado com as carpideiras entranhadas na lata
Como tétano, como hécades, como empregadas domésticas
Marchando dóceis até a boca dos patrões.
Alguns adolescentes bobos atravessam o mármore
Com pizzas nas mãos entrelaçadas,
A mangueira de gasolina é erguida alto,
O cloro é desmanchado nas piscinas,
Eu consumo a vida com os olhos no espelho:
Uma alma obediente aos sinais de trânsito
Luminosos, o verde, o vermelho,
O amarelo galinha ou desodorante. (…)
(…) Eu passei a noite inteira feito um açougueiro
E as flores brotavam por onde eu pisava.
Agora eu olhos essas mãos sujas de subjetividade
E sinto como um animal que me espreita
Os olhos claros da objetividade que jamais degluti. (…)
Porque ter sono é ter pais e mães num galinheiro no quintal.
Eu vi as tecelãs sugando minhocas direto da terra.
Eu vi um cobrador de ônibus cantar.
Eu vi um sinal de trânsito subir aos céus.
Eu vi sangue chorando como um recém-nascido.
Eu vi meu nome emudecer.
Eu vi mulheres gritando de dor.
Mas é melhor correr, no trânsito
Toda a atenção é necessária,
Ele dizia com os pés no freio
E na embreagem enquanto eu desviava
De gordas e crianças.
E é sempre mais confortável ter sido criado, apenas.
A misericórdia divina reside
Em não pedir opiniões…