Por qual silêncio andará meu corpo
A essa hora da noite da terça-feira mais desnecessária
Que pude conhecer em vida?
Abro as mãos e deixo que o espírito dos porcos
Corra sobre mim
Pois o espírito dos anjos usa lantejoulas
E ri dos que tropeçam por não saberem flutuar sobre a multidão
Eu ergo o dedo médio para o alto enquanto
Meus pés se ferem na lama e caminham
Lado a lado com as botas e as rodas
E as farmácias e as grifes
E os vaidosos e os assassinos e os fracos
Doces insetos etéreos vagam calmos
Como a superfície de um lago no escuro
E seus olhos entre nós soam quentes
A misericórdia é morna
Um exército cor-de-vela subindo ao sol
Como uma lenta correnteza
Um vento triste varre minha cabeça
Eu olho para cima e me despeço da humanidade verdadeira
Como quem se despede de um parente distante e desconhecido
Num feriado de domingo
Eles correm felizes
São dez ou doze ou no máximo duzentos pontos dourados
Nadando entre as nuvens até o poente
Onde, do outro lado, o Abstrato lhes espera, infindo.
Eu abaixo os olhos e sorrio
Ao meu redor
Sete bilhões de desumanos
Constroem a vida
Sujos de terra
Da cabeça aos pés