Com os olhos do velho na minha cabeça
Eu desci o corredor como quem atravessa uma avenida
Envolvido pelos carros entrei no gabinete e ergui as agulhas
Sobre minha cabeça a foto antiga de um santo
Voltei por mim e apenas por mim
Envolto em sangue dos outros e assepse
Tremendamente humano e calçando luvas de plástico
Eu remendo a carne velha do carpinteiro
Que me olha com óculos de plástico escuro e
Segura as mãos da esposa que seguram um saco plástico
De supermercado onde estão guardados
Os panos cinza e úmidos que envolveram a ferida
Na perna do esposo enquanto viajavam na ambulância
Do governo federal subsidiada ao poder municipal
Da cidade periférica à capital onde existem
Fios vacinas anti-tetânicas e estas mãos cobertas do plástico
Das luvas número 8 demasiado pequenas para minhas mãos
(dizem que eram de pianista)
E formam uma membrana
“pareço um peixe” eu lhe digo sorrindo
E sua esposa ri e tapa a boca
Onde vivem alguns dentes sujos
E a alma distante que segura nas mãos do marido
E no saco plástico de supermercado sujo onde estavam suas ataduras
Como quem segura um terço
Semelhança que guardo calada
Pois leio em seus olhos e sua saia velha tocando os joelhos
Que é evangélica e me olharia com reprovação “católico!”
Sem imaginar que sou ateu…
Alguém mede a pressão arterial próxima ao osso rádio do velho
Eu enxugo o suor da testa com as mangas
Imaginando uma possível infecção
Minhas mãos plásticas e brancas pingam sangue
Enquanto acrobata entre pinças e tesouras de ponta curva
Eu sonho uma humanidade impossível
Onde este corte fosse o corte do senhor Manoel Abreu, carpinteiro, portador de catarata,
Esposo da senhora de nome desconhecido, demasiado tímida, calada e sorridente,
Provavelmente evangélica e hipertensa, que segura sacos plásticos
Como objetos religiosos, e onde este corte doesse por estar nele e por fazê-lo sangrar
E não por (desconfio, desconfio) ser a costura que costuro e o poema que teço
O acadêmico que furta versos dos decepados
O egóico, o fortuito com palavras e lâminas,
O inverso da objetividade preenchendo prontuários,
O que implora para um Deus desacreditado e terrivelmente onipresente
Poder ver o que é externo, e sentir o exterior,
E estar livre deste gosto como um fígado moldando
Tudo o que o universo despenca sobre meus sentidos
Transformando o que não me pertence em eu
Limitadamente interno
Um circo cobrindo o absurdo das explosões que desconheço
De eufemismos e abstrações
Como um cavalo coberto por toalhas de papel
Transformando os sóis e os seus manoéis e as senhoras evangélicas
Em órgãos, em vísceras a se tornarem poemas viscerais
O ódio às esponjas:
Pudera ser volátil
Ser puro como um halogênio.
Esse poema é a prova de que te superares não reside necessariamente em trocares de foco ou de dicção ou de molejo ou de ritmo. Nesse poema tais elementos são bem parecidos com os de todos os teus anteriores, mas é um poema novo, ou mais precisamente é um poema único. Em verdade ele só é comparável ao que existe dentro dos olhos de cada leitor teu. Vai entender.
Tu és incrível: somes para te transformares em esplendor. Consegues mudar a saudade da gente em orgulho e amores diversos.
VITOR!