Num instante eterno como numa estante
Minha vida nua ergue-se livro
E eu impresso em letras úmidas
Caminho irritado sob o meio-dia
Goela abaixo na farmácia
Enquanto famintos me espreitam
Pedindo moedas goela acima
Vômito na lajota vômito
E a mãe indignada acena
Abro minha carteira como um punhal
E num instante caminho coberto de caixas
De tarjas vermelhas de tarjas azuis de tarjas pretas
Uma árvore de natal um homem sabor groselha
A gordura em meu abdômen atesta
Que estaria morto há muito tempo
Não fosse o cartão de crédito enfiando
O braço em minha boca goela abaixo
Goela acima até colocar como quem bota um ovo
As pílulas no ninho imenso por favor
Mastiguem as minhocas
Pois meus dentes são todos de leite
E me façam arrotar e me façam adormecer
Malária malária malária
Canção e febre todas as tardes
Malária malária malária
Um saco de carne barbudo e indefeso
Atravessa a rua arremessado por seu medo
Contando os centavos para o analista
Enquanto crianças morrem de fome
(Meus poemas não são sobre mim,
É meu segredo funesto:
Meus poemas não são sobre mim).
A gripe dos frangos já não é mais manchete
A menina atirada pela janela foi super-explorada pelo capitalismo midiático
Hohoho! Papai Noel não existe
Amargo sinto o gosto das crianças em minha boca
O cacho de bananas sobre a mesa
A farofa e a galinha e os tendões da galinha
Em minha língua a mandioca amarela
As mãos da mocinha fazendo a farinha o
Facão ao lado o homem gordo que lhe come todos
Os dias lentamente cada vez mais
Derretida em pó vegetal e pedra deglutida
Seca farinha seca no sacão o velho grita
Minha alma inteira nesta cápsula
O sol de comprimidos me dá a caminha
E canta malária malária malária
Mas estou aprendendo a me entender
É que meu pai me abandonou cedinho
E tenho medinho de morrer sozinho
Mas escrevo meus poemas de amor
Amor juro que escrevo poemas de amor
Eu tenho um grande potencial
Aqui dentro no meu peito e na minha barriga
E um dia minha barba cresce
Meus poemas estão sobre mim me
Enterrando mas vamos cantar a canção que compus
Como uma gargalhada
Afinal é por isso que vale a pena viver
É preciso cantar e ser puro e feliz
Como uma margarida coberta de benzodiazepínicos e mel
Como uma criança de cinco anos de 23 anos
Caminho irritado sob o meio-dia
Havia um homem belo no ônibus
Comparei seu rosto de cavalo imenso com as marcas em minha testa
Uma criança mendigava na rua
Porém eu só podia sentir inveja do seu rosto de cavalo imenso
Em comparação com as marcas em minha testa
Divina classe média de ego e poesia
A criança estende a mão e penso na mulher que não tive e
Invento uns versos tentando inventar uma nobreza
Que jamais terei
“De nenhuma palavra se fará seu gozo,
Que lhe dará o momento presente por inteiro
E se desmanchará no escuro, eterno e não.”
E era patético o poeta contemplando a inutilidade da palavra
Enquanto o homem calado no ônibus era inteiro e era
Homem
Dou cinqüenta centavos à criança
E não lhe digo nada nem sinto nada
Seria cruel demais dar além de uma moeda insípida
Egoísmo como piedade
Toma e compra pão ou cola e só
E eu caminharei para minha casa corcunda e vinte anos
E assim estaremos honestos e ruins
É lucro meu jovem é tudo lucro esta moeda e este vício
Afinal já estaríamos mortos não fosse
O concreto o terror o delírio o vício como uma espinha de peixe
Um prédio onde todos vivemos um berçário ou um manicômio
Incrustado no esôfago de todas as almas
Amargo o gosto da raiva contra ninguém
Me faz socar meus olhos meus rins gritam
Excreta excreta excreta
Como se cantassem malária
E há urina nas esquinas
Estamos banhados no seu cheiro e nos vasos sanitários
Excretamos em coro todos os dias
Amarela a secreção do que nos sobra
E ele lava as mãos imundo
O mundo é a máquina de ar quente do banheiro público do shopping
Arquejando corro farejando meus poros
Entre lojas e mulheres felizmente temos débito eletrônico
Minha boca ascendendo ao paraíso pela escada rolante
Até a praça de alimentação como uma alma
Procurando expiação
O animal moído o vegetal moído o molho de tomate
Eu brincava que era sangue quando era criança
E banhava meus braços e corria para minha mãe
Que lambia minha pele e dizia
Te peguei
Eu sorria mas logo meus dentes começaram a cair
E a pelugem e o sexo sangraram um idioma estranho
Enquanto ensangüentado de condimentos
Eu aprendia a beber e comer como adulto
Fundo fundo na alma súbita
A mulher abriu suas pernas
E eu me vi fraco e homem
Abandonado de cócoras chorando ao pé do altar
Até me esquecer que não fui batizado
Sob o meio-dia o meio-dia
Infesta meus olhos de rotina
Eu quero os cães
Eu quero ter ganhado
Eu quero me debater como uma criança chata
Gritando o presente impossível
Pois sou imundo e bruto
Impossível poeta infecto o feio olhando nos olhos da beleza
O feio olhando nos olhos da beleza
E gritando imundo e gritando gorila e gritando espaço
E gritando abra-te sésamo e gritando pronto-socorro municipal
E inútil e fim
E sem querer o fim
Mas gritando fim
O fim o fim como num carrossel beleza
O fim beleza o fim
Gritando o fim
Gritando
Último o
Fim
E cuspindo miserável e amargo no rosto da harmonia
O poeta mau infanticídio e convulsão
Espanca a flor inocente
Espanca a flor
Espanca a flor
Bela.
Sôfrego caminho pelo resto do poema
Os restos de comida grudados no rosto
Meu sangue lambido pelos restos de mãe
Que guardo como socorro
O menino deve estar dormindo com os cinqüenta centavos
Digeridos na cabeça recostada em algum pedaço de papelão
Eu ajeito meu travesseiro
Está na hora de comprar um ar-condicionado
Afinal
Eu já deveria estar morto há muito tempo
E que Deus vele a desigualdade, criacionista.
Eu te amo. Eu te amo muito, muito.
Meu amigo, lanço-me nesta página com um medo de te ler, me ver nos teus versos tão insípida e desesperançosa.
Mas quero renovar-me nessa verve, como quem se atira no palco, aos 12 anos, que agora são 20 e me fazer novamente noviça, moleca, que não teme os arames farpados que protegem a arte de nós mesmos.
te amo muito. E estarei de volta. Como boa filha, lambo meu sangue de mentira, retorno a casa cheia de cicatrizes para frasear.
beijos.
Vitor,
Ler-te é como visitar muitos quadros impressinantes, tu segues a senda da liberdade, ao expressares, ao dizeres, ao induzires…todos a ruminarem suas in-consciências. O mundo é isso e ainda não é tudo. Vejo-te irmão.
Abraços
TT
Adorei, rapaz.
Forte,
que rasga os pensamentos,
que queima a pele.
Acho que vou criar uma página dessas. Pensava nisso ontem à noite,
num dos meus lapsos poéticos.
Parabéns.
Tu sumiste, também. Eu só não tenho mais orkut, mas o msn continua aí. To com saudadona. Tava pensando ontem em como seria bom poder te ligar pra tomarmos um café na Sol… assim, simples.
Suspiro.
vitor,
talvez não tarde demais, tardo em ler-te aqui, mas não a reconhecer-te. o turbilhão assoma ainda imperioso, ainda alvarino e a largos campos. fico imaginando como seria ler algo teu em concisão… mas qual! é assim mesmo, queremos ficar em carne viva aos 20 anos. mas o poema soterra, sim. e fico querendo te ver mais debaixo de tanto escombro. saudades de ti.
abraços,
r
Venho aqui por recomendação do Renato (e de Pierre tambem, que sempre me fala de ti) e qual surpresa não tenho! Encontro um poeta que não hesita em falar dos problemas que encontramos no dia-a-dia e que ainda é corajoso a ponto de dizer que não é pra sí que faz os poemas (e então eu me pergunto: será pra humanidade?pros deuses? pro amor?). Eles não falharam ao me mandarem aqui!
Já te admiro.
Abraços,
E.P.
Vitor, acho que não me conheces, sou amigo do Márcio, da Companhia Moderno.
Li teus poemas e fiquei impressionado, são muito bons, mesmo! Também tenho certo vício pela poesia, embora não costume fazer textos com tamanha extensão pro dia-a-dia como esses teus (especialmente o IML).
Muito bom, quase uma prosa poética. Abraços e parabéns.