IML

Não sei o que há
Sob a pele deste rapaz.
Vê-se que o dia, espesso,
É toda a sua pelugem,
Colorindo-lhe como uma
Plumagem, porém mais
Violenta, pois que é
Tomada por vozes.

Contudo, o que mais intriga
São as janelas abertas espalhadas
Em seu sangue,
Por onde um ar úmido entra,
Carregando o canto de um pássaro,
Feito oxigênio a invadir suas veias.
Senti-me no sopé de uma montanha.

Notou-se a existência de um ovário em seus olhos,
Ligado a um útero em sua língua,
Grotesco homem fêmeo
Fecundado pelo dia.
Diversas vezes fomos assaltados
Pelos gritos dos recém-nascidos que eram concebidos
Enquanto dissecávamos o cadáver-mãe.

Já não sei onde enterrá-lo.
Ele provavelmente comeria o cemitério.
Sugiro esquecê-lo, chutá-lo abismo abaixo,
E deixar que ele se divirta com
Sua queda anônima
E seu vôo efêmero.

Sem causa-mortis,
Sem causa-vita,
Feito um poema,
Feito um poeta, enfim.

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