A Glória da Manhã

Nossos olhos unidos, irmãos,
Ergam as mãos, agradeçamos
Em coro, e nosso vômito
Subirá aos céus em uma só voz.

Eu vos digo:
A manhã gloriosa se ergue perante meus olhos fundidos.
E, porque tenho fome,
Ela me mostra os homens e as mulheres.

Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres.
João o será entre os homens. Por toda a eternidade que imaginam,
Enquanto existirem nomes.

Agradeçamos nosso sangue que pulsa com um salto,
E, quando atingirmos o topo do vôo, gritemos
“Vinde a nós, Gravidade!”.
Ela nos abraçará, solícita e infinita,
Carregando-nos em seus braços,
De volta ao barro de onde partimos.

Ela não nos esquece, nunca esquecerá.
Mesmo quando formos crucificados, ela estará lá,
Fiel, em nossos pés e nossas mãos,
Enchendo de peso o corpo, para que a dor exista
E os pecados se expiem.

Eu gargalhava nu,
Meu corpo deitado ao lado de todos os corpos,
Numa bolha azul recheada de guerras,
Como um peru de natal.
Girávamos em espiral ao redor da estrela,
Enquanto algo nos falava sobre segredos, mas não os revelava,
Sussurrando-os como histórias de ninar, até que adormecemos.

Ah, furem minhas mãos,
Pois eu também estou sujo e abandonado,
E guardo um grito, um grito muito fundo…

Sou um bicho vivo e cheio de sangue respirando bem no centro da cidade,
Correndo do ônibus assassino que me matará
Para dar de comer às manchetes de jornal.
E meu cadáver viverá eterno na terceira página
Da folha policial de uma edição de terça-feira,
Feito um evangelho perdido.

E haverá um ladrão bom na coluna da direita,
Um ladrão mau na coluna da esquerda,
Um traficante na folha de trás,
Receitas culinárias no caderno da mulher
E o ensaio sensual da revelação do ano:
É o prazer de ser homem, baby,

O prazer de ser homem.

Abram as mãos, irmãos, batamos os braços todos juntos,
Estamos juntos na mesma queda,
Uma andorinha só não faz verão,
Mas somos a humanidade inteira,
A humanidade inteira, baby,

A humanidade inteira, oh yeah.

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