A Galinha

Setembro 12, 2008 - 2 Responses

Porque ser belo já não é ser inteiro,
E o que foi óbvio está vestido como turvo,
Porque ser aberto se tornou estar denso
E apenas ser já não significa estar puro.

Durante a noite, engoli as fronteiras que ergui
Pela manhã. Vi meus vasos derramados,
Vi a carne empapada de sangue e de alma,
E, na lama, apenas meus dedos moviam-se,

Tateando, lentos, a superfície do ninho.
Os ovos misturavam-se à palha,
Intactos e amorfos. Dentro da casca,
Os animais esqueciam se eram pássaros,

Lagartos ou alguma espécie de peixe.
Conforme envelheciam, se tornavam apenas devir.
Envolvi meu corpo ao redor da ninhada,
E os embriões adormeceram no calor da espera.

Barbárie

Setembro 10, 2008 - No Responses

Porque me vi livre de repente,
Sem sequer saber do que fui libertado,

Chamei Deus Àquele que supus ter destrancado um suposto cárcere e
Chamei homens àqueles que constatei compartilharem deste vento.

Dei nome a tudo que a areia trazia. A tudo que pude tocar na tempestade.
O que não pude alcançar seguiu intacto, foi levado pelo vento.

Amanhã, chegarei em casa.
Despirei a roupa, apagarei os livros,

O dia estará liberto das palavras,
E meus ossos serão belos novamente.

O Lixo

Setembro 9, 2008 - No Responses

Batia o vestido de domingo na pedra.
Sobre ela, urubus belos planavam.
Um octilhão, o dobro ou mais de olhos,
Todos rezando coisas escondidas,
Uma igreja plumada a rodar no espaço
Caindo como um sinal de satélite, um hiato
De almas sobre o sabão da mulher
Que inventei em meu ato Nero de me dizer
Cheio de carne e saponáceos.
O vestido é de algodão e está torto
No corpo úmido, recém-parido e sexual,
Tremendamente sexual
Da mulher que agora come frutas de feira
Em meus cabelos enquanto estou preso
No cruzamento mais congestionado da cidade.
Meus olhos de intestino delgado, minhas mãos de intestino grosso,
Mas a boca sempre seca, a garganta meio que virgem, meio que inferno,
E versos simples, simples. “A humanidade é imensa.”
Queria um poema puro.

A cara das pessoas, que coisa bela e enganada.
Alguns cães cruzam a rua, meu coração range orgânico às vezes,
É um esqueleto com artrite. Os cães são imensos, e os outros animais também,
E todos roem ossos, eu imagino. Queria um poema puro. Comer algo puro.
Eu tentei amar desesperadamente,
Tentei desesperadamente amar algo desesperadamente,
Todos tentamos, pensava, enquanto me empanturrava de comida e palavras.
Sôfrego, o corpo de arroz com feijão, a alma de frango assado,
Caí embrulhado em ônibus e carteiras de motorista,
Beijei minha mulher de tabelas e molas,
Senti os braços úmidos que me erguiam, mágico,
Em semelhança e roupas.
Tropecei nos pássaros, derramei refrigerante em meus sonhos,
Eram de carne e pano, descobri enquanto, manchados,
Eles desmanchavam em meus dedos.

Um vendaval morre em silêncio enquanto me visto, higienizado.
Outro corre vendaval, fazendo adormecer e surpreender as lavadeiras
Em meus cabelos, e o vento seca os vestidos e os molha de chuva,
E todas cantam, úmidas, algo que arde e entristece. Eu mantenho a maré,
Como quem foge de si, uma ventania que entrelaça, uma fome que se quer em jejum.

As mãos, envelhecidas, estão cheias de lâminas.
O rosto das pessoas se dilui, eu me entranho, diluído entre cachorros e multidões.
Temo tocar no rosto do menino que me sorri, e me pergunto, calado,
Se meu tato ainda reconhece pele, ou apenas coisas de número e corte…
Estamos tão pesados, meus companheiros e eu,
Ainda estamos sós, obesos de tanta esperança.

Uma epifania ao dobrar uma esquina, a morte ao provar de uma face,
Um queda lenta, como de uma folha, ao ver o sol penetrar os orifícios da rua
E me perceber morno também.
Eu desfruto de Deus, literalmente. Arranco-O em dorso e ventre, e cauda e face,
Arranco da árvore que eu amo, e como da fruta, fértil e violento,
Os dentes percorrendo o firmamento, entornando o suco, por vezes amargo,
Por vezes triste e doce, por vezes mulher lavando coisas, por vezes pai distribuindo doces,
Por vezes massa, por vezes trigo ainda,
E por vezes areia apenas.
Mas, no meio da ceia, temo comer apenas da minha própria carne e beber apenas do meu próprio sangue…

Íntimo, forte e torto segue meu grito
Em eco e invenção.
Sou metade espelho, metade anzóis.

Envolta em ácidos nucléicos e saponáceos
A mulher enxágua o vestido de flores,
As pernas, imensas, são troncos imersos na fonte.
No entanto, ela roda, bailarina, em fome e verso.
Deus também roda, num gravador,
Mas o batom nos lábios dela não desmancha com a água,
E a tintura vermelha no corpo lembra a de um índio,
Lembra um ensangüentado que tive de costurar.

Pedi água e parei a sutura. Eu banhei minhas mãos em soro,
E o sangue fluiu, diluído. Sorri debaixo da máscara.
O homem, algemado no leito, jamais partilharia dessa melancolia
Ou desse romantismo. Nem eu. Mas era meu corpo
Que saía de minha mãe naquela hora. Dois pulmões, entre bilhões.
E narinas, e veias, e artérias, e nervos, que sempre correm juntos,
Rumando para o encéfalo ou o coração.
Dizem que os rios fluem para o mar.
Devem existir exceções, eu acredito,
Mas não afirmo.
Só o que é certo é que tudo ruma,
O rosto das pessoas, o gosto das faces,
Os cães entre os carros, a vida das mães, o grito dos pais,
A dor das viúvas, o odor dos rejeitados,
O olor das vivas, o fluir das seivas e das linfas,
Os cortes, os nascimentos, as cidades, os engarrafamentos.

E algo rumando, eterno, para minha alma,
Algo sem número, cheio de olhos, algo como um polvo,
Eterno e múltiplo, pleno de mãos, túrgido de pus e de vinho,
De nádegas e de gônadas, de recifes e de carnes.
Estar preso dentro de um carro num engarrafamento
É tão fascinante quanto inventar cantos de lavadeiras abstratas.

Eu tanto ouço motores como ouço anjos,
Porque há muito do meu Deus no que se decompõe.

Fragmento no. 7

Setembro 5, 2008 - One Response

Porque, entre Homens e mortos,
Estamos nós em multidões.
Como máquinas, despertamos mornos
Sob a espera inexata de algo,
Como um pressentimento
Ou uma desesperança.

Morfologia

Agosto 31, 2008 - No Responses

(…) Enquanto o sol,
Uma galinha amarela a espernear,
Queimava a língua em suas línguas,
Estavam todas empoeiradas na estante
Durante o ônibus que lhes levava até uma
Inteligência inútil e uma sabedoria impossível
Enquanto pensavam nas frases que nunca viveriam
Mas gostariam de falar
Ah, sim, eu andava de olhos baixos
Fixos no retrovisor
Lado a lado com as carpideiras entranhadas na lata
Como tétano, como hécades, como empregadas domésticas
Marchando dóceis até a boca dos patrões.
Alguns adolescentes bobos atravessam o mármore
Com pizzas nas mãos entrelaçadas,
A mangueira de gasolina é erguida alto,
O cloro é desmanchado nas piscinas,
Eu consumo a vida com os olhos no espelho:
Uma alma obediente aos sinais de trânsito
Luminosos, o verde, o vermelho,
O amarelo galinha ou desodorante. (…)

(…) Eu passei a noite inteira feito um açougueiro
E as flores brotavam por onde eu pisava.
Agora eu olhos essas mãos sujas de subjetividade
E sinto como um animal que me espreita
Os olhos claros da objetividade que jamais degluti. (…)

Porque ter sono é ter pais e mães num galinheiro no quintal.
Eu vi as tecelãs sugando minhocas direto da terra.
Eu vi um cobrador de ônibus cantar.
Eu vi um sinal de trânsito subir aos céus.
Eu vi sangue chorando como um recém-nascido.
Eu vi meu nome emudecer.
Eu vi mulheres gritando de dor.
Mas é melhor correr, no trânsito
Toda a atenção é necessária,
Ele dizia com os pés no freio
E na embreagem enquanto eu desviava
De gordas e crianças.

E é sempre mais confortável ter sido criado, apenas.
A misericórdia divina reside
Em não pedir opiniões…

Constatação

Agosto 26, 2008 - No Responses

A Realidade tem uma barriga heterogênea.
Grávida, a balofa implora por comida no asfalto,
Enquanto arrota na janela dos carros,
E seu bafo é todos nós.
O vidro das portas sobe elétrico, sincronizado,
Onisciente, quem sabe…

Família

Agosto 26, 2008 - No Responses

Por qual silêncio andará meu corpo
A essa hora da noite da terça-feira mais desnecessária
Que pude conhecer em vida?

Abro as mãos e deixo que o espírito dos porcos
Corra sobre mim
Pois o espírito dos anjos usa lantejoulas
E ri dos que tropeçam por não saberem flutuar sobre a multidão

Eu ergo o dedo médio para o alto enquanto
Meus pés se ferem na lama e caminham
Lado a lado com as botas e as rodas
E as farmácias e as grifes
E os vaidosos e os assassinos e os fracos

Doces insetos etéreos vagam calmos
Como a superfície de um lago no escuro
E seus olhos entre nós soam quentes
A misericórdia é morna
Um exército cor-de-vela subindo ao sol
Como uma lenta correnteza
Um vento triste varre minha cabeça
Eu olho para cima e me despeço da humanidade verdadeira
Como quem se despede de um parente distante e desconhecido
Num feriado de domingo
Eles correm felizes
São dez ou doze ou no máximo duzentos pontos dourados
Nadando entre as nuvens até o poente
Onde, do outro lado, o Abstrato lhes espera, infindo.

Eu abaixo os olhos e sorrio
Ao meu redor
Sete bilhões de desumanos
Constroem a vida
Sujos de terra
Da cabeça aos pés

A Incompleta Fábula sobre Tudo

Agosto 25, 2008 - No Responses

Nos desacordados nos quartos
Os olhos estão calados
Para que a luz não acorde
Nunca acorde
O tudo adormecido que
Espreita desperto com
Mãos de lanternas e canetas
Com o hálito lúcido de
Filas e de carnavais

As hordas de carpideiras que se alinham
Como exércitos na beira do abismo
Entre o dia e o mergulho
Erguem as mãos de súbito
O rei de tudo há de desfilar hoje
As bocas dos desacordados abrem-se em coro
Boquiabertas

Ele anda estranho
Manco e boi
Vagando entre pastos
Em eterna corrida desesperada e lenta
Atrás da rainha nada
Aquela que vive por detrás das orelhas
Num fosso desconhecido dos anatomistas e dos filósofos
Onde os olhos nunca alcançam
Onde existem palavras jamais provadas por qualquer boca

E é por isso que Tudo tem febre
Pelo sabor que jamais sentirá
Daquilo que jamais
Daquilo que não
Daquilo que nunca
Pois sequer

Poema exagerado e precisosinho

Agosto 25, 2008 - One Response

Com os olhos do velho na minha cabeça
Eu desci o corredor como quem atravessa uma avenida
Envolvido pelos carros entrei no gabinete e ergui as agulhas
Sobre minha cabeça a foto antiga de um santo
Voltei por mim e apenas por mim
Envolto em sangue dos outros e assepse
Tremendamente humano e calçando luvas de plástico
Eu remendo a carne velha do carpinteiro
Que me olha com óculos de plástico escuro e
Segura as mãos da esposa que seguram um saco plástico
De supermercado onde estão guardados
Os panos cinza e úmidos que envolveram a ferida
Na perna do esposo enquanto viajavam na ambulância
Do governo federal subsidiada ao poder municipal
Da cidade periférica à capital onde existem
Fios vacinas anti-tetânicas e estas mãos cobertas do plástico
Das luvas número 8 demasiado pequenas para minhas mãos
(dizem que eram de pianista)
E formam uma membrana
“pareço um peixe” eu lhe digo sorrindo
E sua esposa ri e tapa a boca
Onde vivem alguns dentes sujos
E a alma distante que segura nas mãos do marido
E no saco plástico de supermercado sujo onde estavam suas ataduras
Como quem segura um terço
Semelhança que guardo calada
Pois leio em seus olhos e sua saia velha tocando os joelhos
Que é evangélica e me olharia com reprovação “católico!”
Sem imaginar que sou ateu…
Alguém mede a pressão arterial próxima ao osso rádio do velho
Eu enxugo o suor da testa com as mangas
Imaginando uma possível infecção
Minhas mãos plásticas e brancas pingam sangue
Enquanto acrobata entre pinças e tesouras de ponta curva
Eu sonho uma humanidade impossível
Onde este corte fosse o corte do senhor Manoel Abreu, carpinteiro, portador de catarata,
Esposo da senhora de nome desconhecido, demasiado tímida, calada e sorridente,
Provavelmente evangélica e hipertensa, que segura sacos plásticos
Como objetos religiosos, e onde este corte doesse por estar nele e por fazê-lo sangrar
E não por (desconfio, desconfio) ser a costura que costuro e o poema que teço
O acadêmico que furta versos dos decepados
O egóico, o fortuito com palavras e lâminas,
O inverso da objetividade preenchendo prontuários,
O que implora para um Deus desacreditado e terrivelmente onipresente
Poder ver o que é externo, e sentir o exterior,
E estar livre deste gosto como um fígado moldando
Tudo o que o universo despenca sobre meus sentidos
Transformando o que não me pertence em eu
Limitadamente interno
Um circo cobrindo o absurdo das explosões que desconheço
De eufemismos e abstrações
Como um cavalo coberto por toalhas de papel
Transformando os sóis e os seus manoéis e as senhoras evangélicas
Em órgãos, em vísceras a se tornarem poemas viscerais
O ódio às esponjas:
Pudera ser volátil
Ser puro como um halogênio.

Passado no.2

Agosto 25, 2008 - No Responses

Eu dobrei meus olhos
Até ver em minhas costas
Os pontos que preciso retirar
Como quem revela uma foto
Da sutura
A sutura como um mapa
Em meus sulcos
Como o suco de uma fruta
Bebo essa curva
Esse espelho
Enquanto corro com
Tesouras nas mãos
Como se fossem linhas
E onde toco
Como um açougueiro
Ou uma costureira
Eu decepo coisas enquanto teço outras

Disneylândia

Agosto 21, 2008 - One Response

Há muito sangue jogado na cama
Jorrado como estrelas do mar que são cuspidas
Do mar e eu choro como um monstro que sangra
Ensopado o gato enrola sua língua na minha e
Eu me engulo ostra
Em minha saliva os barcos voam assombrados
Voam imensos garganta abaixo como quem se atira
De uma cachoeira esôfago estômago intestino
Corrente sanguínea boca das células
Eu ordeno aos homens proa convés bombordo
Ateiem as velas queimem as velas
Construam casas com a madeira do casco
Pois sonhei que estamos perto da praia
E se não estivermos
Afundemos bebamos o mar utilizemos os verbos
Em flexões estranhas
Até que de nossas barbas o sol nasça
Imenso como o leão no filme da Disney
E da pedra, como o macaco, ergueremos nossos crânios
Nossos corpos neonatos que sorrirão para o próprio reino
Os corações espalhados pelo quarto
As moscas estão gordas imensas
E as larvas não são de borboletas
Alguém lava meus olhos
Com minhas mãos
Assustados com a possibilidade da vida entre os cadáveres
Os vermes sentam à espera
Da hora própria para a refeição
Como velhos amigos conversamos
Sobre coisas dos desertos
E das florestas
Eu lhes digo que algo ainda pulsa
Eles me mostram as crianças e os velhos
Tudo é pasto eles dizem
Eu aponto para as estrelas sorrindo
E assisto o filme da Disney com meu sobrinho
Até as larvas calam para o menino dormir
Tenho medo que meu suor derreta a criança
Estamos ácidos demais eu comento com os que me devoram
Eu pouso
Pouso muito lento
Mas estou gordo e o galho quebra
Repetindo-se.

Ninar ou Simples

Agosto 16, 2008 - 2 Responses

Os monstros estão no escuro
Ele dizia enquanto levantava o filho para o alto em direção à lâmpada
Como se fosse uma estrela e pudesse guardá-lo
De toda sombra que habitasse a casa
Mas era dia
E o sol gemia lento nos andaimes
Enquanto caminhávamos tentando nos ninar
Pais de nós mesmos
Os sapatos breves lúcidos
Inflamavam as articulações dos braços
E era difícil levantar nossos corpos infantes
Com a força cinzenta de nossos corpos rotina
Café e sangue
Caminharemos pela rua aorta até o fim dos sentidos
Então retornaremos areia e argila
Abraçados ao suor dos que nascerem
Faremos lama de nossas lâmpadas

Que escutem nosso canto elétrico
Como um choro
Entre os castelos na praia…

Da Sobrevivência dos Mais Aptos

Junho 14, 2008 - 8 Responses

Num instante eterno como numa estante
Minha vida nua ergue-se livro
E eu impresso em letras úmidas
Caminho irritado sob o meio-dia
Goela abaixo na farmácia
Enquanto famintos me espreitam
Pedindo moedas goela acima
Vômito na lajota vômito
E a mãe indignada acena
Abro minha carteira como um punhal
E num instante caminho coberto de caixas
De tarjas vermelhas de tarjas azuis de tarjas pretas
Uma árvore de natal um homem sabor groselha
A gordura em meu abdômen atesta
Que estaria morto há muito tempo
Não fosse o cartão de crédito enfiando
O braço em minha boca goela abaixo
Goela acima até colocar como quem bota um ovo
As pílulas no ninho imenso por favor
Mastiguem as minhocas
Pois meus dentes são todos de leite
E me façam arrotar e me façam adormecer
Malária malária malária
Canção e febre todas as tardes
Malária malária malária
Um saco de carne barbudo e indefeso
Atravessa a rua arremessado por seu medo
Contando os centavos para o analista
Enquanto crianças morrem de fome

(Meus poemas não são sobre mim,
É meu segredo funesto:
Meus poemas não são sobre mim).

A gripe dos frangos já não é mais manchete
A menina atirada pela janela foi super-explorada pelo capitalismo midiático
Hohoho! Papai Noel não existe
Amargo sinto o gosto das crianças em minha boca
O cacho de bananas sobre a mesa
A farofa e a galinha e os tendões da galinha
Em minha língua a mandioca amarela
As mãos da mocinha fazendo a farinha o
Facão ao lado o homem gordo que lhe come todos
Os dias lentamente cada vez mais
Derretida em pó vegetal e pedra deglutida
Seca farinha seca no sacão o velho grita
Minha alma inteira nesta cápsula
O sol de comprimidos me dá a caminha
E canta malária malária malária
Mas estou aprendendo a me entender
É que meu pai me abandonou cedinho
E tenho medinho de morrer sozinho
Mas escrevo meus poemas de amor
Amor juro que escrevo poemas de amor
Eu tenho um grande potencial
Aqui dentro no meu peito e na minha barriga
E um dia minha barba cresce
Meus poemas estão sobre mim me
Enterrando mas vamos cantar a canção que compus
Como uma gargalhada
Afinal é por isso que vale a pena viver
É preciso cantar e ser puro e feliz
Como uma margarida coberta de benzodiazepínicos e mel
Como uma criança de cinco anos de 23 anos
Caminho irritado sob o meio-dia
Havia um homem belo no ônibus
Comparei seu rosto de cavalo imenso com as marcas em minha testa
Uma criança mendigava na rua
Porém eu só podia sentir inveja do seu rosto de cavalo imenso
Em comparação com as marcas em minha testa
Divina classe média de ego e poesia
A criança estende a mão e penso na mulher que não tive e
Invento uns versos tentando inventar uma nobreza
Que jamais terei

“De nenhuma palavra se fará seu gozo,
Que lhe dará o momento presente por inteiro
E se desmanchará no escuro, eterno e não.”

E era patético o poeta contemplando a inutilidade da palavra
Enquanto o homem calado no ônibus era inteiro e era
Homem
Dou cinqüenta centavos à criança
E não lhe digo nada nem sinto nada
Seria cruel demais dar além de uma moeda insípida
Egoísmo como piedade
Toma e compra pão ou cola e só
E eu caminharei para minha casa corcunda e vinte anos
E assim estaremos honestos e ruins
É lucro meu jovem é tudo lucro esta moeda e este vício
Afinal já estaríamos mortos não fosse
O concreto o terror o delírio o vício como uma espinha de peixe
Um prédio onde todos vivemos um berçário ou um manicômio
Incrustado no esôfago de todas as almas

Amargo o gosto da raiva contra ninguém
Me faz socar meus olhos meus rins gritam
Excreta excreta excreta
Como se cantassem malária
E há urina nas esquinas
Estamos banhados no seu cheiro e nos vasos sanitários
Excretamos em coro todos os dias
Amarela a secreção do que nos sobra
E ele lava as mãos imundo
O mundo é a máquina de ar quente do banheiro público do shopping
Arquejando corro farejando meus poros
Entre lojas e mulheres felizmente temos débito eletrônico
Minha boca ascendendo ao paraíso pela escada rolante
Até a praça de alimentação como uma alma
Procurando expiação
O animal moído o vegetal moído o molho de tomate
Eu brincava que era sangue quando era criança
E banhava meus braços e corria para minha mãe
Que lambia minha pele e dizia
Te peguei
Eu sorria mas logo meus dentes começaram a cair
E a pelugem e o sexo sangraram um idioma estranho
Enquanto ensangüentado de condimentos
Eu aprendia a beber e comer como adulto
Fundo fundo na alma súbita
A mulher abriu suas pernas
E eu me vi fraco e homem
Abandonado de cócoras chorando ao pé do altar
Até me esquecer que não fui batizado

Sob o meio-dia o meio-dia
Infesta meus olhos de rotina
Eu quero os cães
Eu quero ter ganhado
Eu quero me debater como uma criança chata
Gritando o presente impossível
Pois sou imundo e bruto
Impossível poeta infecto o feio olhando nos olhos da beleza
O feio olhando nos olhos da beleza
E gritando imundo e gritando gorila e gritando espaço
E gritando abra-te sésamo e gritando pronto-socorro municipal
E inútil e fim
E sem querer o fim
Mas gritando fim
O fim o fim como num carrossel beleza
O fim beleza o fim
Gritando o fim
Gritando
Último o
Fim

E cuspindo miserável e amargo no rosto da harmonia
O poeta mau infanticídio e convulsão
Espanca a flor inocente
Espanca a flor
Espanca a flor
Bela.

Sôfrego caminho pelo resto do poema
Os restos de comida grudados no rosto
Meu sangue lambido pelos restos de mãe
Que guardo como socorro
O menino deve estar dormindo com os cinqüenta centavos
Digeridos na cabeça recostada em algum pedaço de papelão
Eu ajeito meu travesseiro
Está na hora de comprar um ar-condicionado
Afinal
Eu já deveria estar morto há muito tempo

E que Deus vele a desigualdade, criacionista.

A Glória da Manhã

Junho 3, 2008 - No Responses

Nossos olhos unidos, irmãos,
Ergam as mãos, agradeçamos
Em coro, e nosso vômito
Subirá aos céus em uma só voz.

Eu vos digo:
A manhã gloriosa se ergue perante meus olhos fundidos.
E, porque tenho fome,
Ela me mostra os homens e as mulheres.

Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres.
João o será entre os homens. Por toda a eternidade que imaginam,
Enquanto existirem nomes.

Agradeçamos nosso sangue que pulsa com um salto,
E, quando atingirmos o topo do vôo, gritemos
“Vinde a nós, Gravidade!”.
Ela nos abraçará, solícita e infinita,
Carregando-nos em seus braços,
De volta ao barro de onde partimos.

Ela não nos esquece, nunca esquecerá.
Mesmo quando formos crucificados, ela estará lá,
Fiel, em nossos pés e nossas mãos,
Enchendo de peso o corpo, para que a dor exista
E os pecados se expiem.

Eu gargalhava nu,
Meu corpo deitado ao lado de todos os corpos,
Numa bolha azul recheada de guerras,
Como um peru de natal.
Girávamos em espiral ao redor da estrela,
Enquanto algo nos falava sobre segredos, mas não os revelava,
Sussurrando-os como histórias de ninar, até que adormecemos.

Ah, furem minhas mãos,
Pois eu também estou sujo e abandonado,
E guardo um grito, um grito muito fundo…

Sou um bicho vivo e cheio de sangue respirando bem no centro da cidade,
Correndo do ônibus assassino que me matará
Para dar de comer às manchetes de jornal.
E meu cadáver viverá eterno na terceira página
Da folha policial de uma edição de terça-feira,
Feito um evangelho perdido.

E haverá um ladrão bom na coluna da direita,
Um ladrão mau na coluna da esquerda,
Um traficante na folha de trás,
Receitas culinárias no caderno da mulher
E o ensaio sensual da revelação do ano:
É o prazer de ser homem, baby,

O prazer de ser homem.

Abram as mãos, irmãos, batamos os braços todos juntos,
Estamos juntos na mesma queda,
Uma andorinha só não faz verão,
Mas somos a humanidade inteira,
A humanidade inteira, baby,

A humanidade inteira, oh yeah.

IML

Junho 3, 2008 - No Responses

Não sei o que há
Sob a pele deste rapaz.
Vê-se que o dia, espesso,
É toda a sua pelugem,
Colorindo-lhe como uma
Plumagem, porém mais
Violenta, pois que é
Tomada por vozes.

Contudo, o que mais intriga
São as janelas abertas espalhadas
Em seu sangue,
Por onde um ar úmido entra,
Carregando o canto de um pássaro,
Feito oxigênio a invadir suas veias.
Senti-me no sopé de uma montanha.

Notou-se a existência de um ovário em seus olhos,
Ligado a um útero em sua língua,
Grotesco homem fêmeo
Fecundado pelo dia.
Diversas vezes fomos assaltados
Pelos gritos dos recém-nascidos que eram concebidos
Enquanto dissecávamos o cadáver-mãe.

Já não sei onde enterrá-lo.
Ele provavelmente comeria o cemitério.
Sugiro esquecê-lo, chutá-lo abismo abaixo,
E deixar que ele se divirta com
Sua queda anônima
E seu vôo efêmero.

Sem causa-mortis,
Sem causa-vita,
Feito um poema,
Feito um poeta, enfim.

Torcicolor

Junho 1, 2008 - One Response

Mantinha os olhos fixos no sol,
Como que a buscar lucidez.
Estava a anos na mesma posição,
Parado, a face voltada para o céu,
Para a estrela que lhe tirara o sono.

Já não havia noite, nem haveria dia.
O sol, em eterno-meio dia,
Queimara-lhe as retinas.
Estava cego, e perseguia a luz
Como quem tem sede,
Feito um girassol.

Há anos sentara sob sua estrela,
A olhar com um sorriso bobo para o alto,
Como quem ouve uma sereia…
As crianças corriam ao seu redor,
E por vezes pensavam que era uma estátua
Até ouvirem a canção que cantarolava
Baixinho, o tempo inteiro…

A pele, tostada e seca
Estava coberta de musgo,
E um pássaro já fizera ninho
Em suas costas.
Sua barba incrustara no chão,
As mãos abertas num eterno aceno…

No fundo, o que desejava
Era o corpo do sol, num beijo.
“É uma mulher, é só uma mulher,
É só carne entranhada nessa luz”,
Repetia para o suor que brotava
Em sua pele, tentando guardar algum
Mínimo de água em si, e ao mesmo tempo
Despejando seus odres sobre a areia,
Era um suicida, um sonhador,
Um desidratado de boca aberta
Tentando engolir o calor do deserto.

E acenava um aceno bobo,
Lá do alto, era invisível,
Um ponto mínimo submerso na cidade de néon…
Fazia longos monólogos para a sua estrela,
Gritando com todas as suas forças, na esperança de ser escutado…

E falava de seus sonhos até adormecer de olhos abertos
Pois as órbitas estavam demasiado inflamadas
Para lhe permitir fechar as pálpebras.

A cidade era imensa,
A multidão lhe engolia,
Enquanto ele, estático,
Praticava o labor de todos os dias,
Comendo, indo ao banco,
Atravessando a rua carregando uma esperança
Como uma saca de farinha sobre a cabeça.

Ele murmurava seu amor,
Assombrado por luz,
O pescoço contorcido em cores,
Os olhos a sangrar.
Dói andar pelo dia a sangrar por causa do sol.

Contudo, o amor lhe fora dado assim.
Como um gato vivendo em sua barriga,
Dentro do corpo pobre
Havia outro sol que rugia
E o impelia em gravidade e combustão
Ao sol que queimava longe.

Nem enterrado, nem submerso, nem cego,
Seus olhos eternamente abertos, fixos no sol.
No sol.
No sol.
No sol, amor, no sol.

Já tentara arrancar os olhos,
Lançá-los pelo espaço, através das galáxias,
“São bilhões de estrelas”,
Repetia em meio ao cansaço da fuga,
“São bilhões de estrelas”.

Mas seus olhos, como baratas surgindo do esgoto,
Teimavam em renascer em suas órbitas.

Curandeiras, em vão, lhe vendaram os olhos.
Fingia olhar para o chão, e os que olhavam seu rosto
Nada notavam, exceto um calor muito doce vindo dos olhos…

Caminhava, vendado e prestativo,
Um homem de bem entre os guarda-chuvas.

Mas, por baixo da venda, por baixo das pálpebras,
Por baixo dos olhos de pele,
Seus olhos inflamados contemplavam, estupefatos,
Aquela estrela em eterno meio-dia.

Dentro da cabeça baixa,
Havia um homem em pé olhando para o céu,
A esticar os braços, e equilibrar-se nas pontas dos pés,
Tentando tocar o sol como quem
Apanha o fruto de uma árvore.

E ele seguia em solidão
A imaginar-se tateando o corpo líquido do sol,
A construir telescópios com sua carne,
A gritar canções para o espaço até perder a voz…

Alheio ao fogo,
O sol queimava imenso, lindo,
Como um sol, como uma catarata
Ao redor de todas as coisas.