Batia o vestido de domingo na pedra.
Sobre ela, urubus belos planavam.
Um octilhão, o dobro ou mais de olhos,
Todos rezando coisas escondidas,
Uma igreja plumada a rodar no espaço
Caindo como um sinal de satélite, um hiato
De almas sobre o sabão da mulher
Que inventei em meu ato Nero de me dizer
Cheio de carne e saponáceos.
O vestido é de algodão e está torto
No corpo úmido, recém-parido e sexual,
Tremendamente sexual
Da mulher que agora come frutas de feira
Em meus cabelos enquanto estou preso
No cruzamento mais congestionado da cidade.
Meus olhos de intestino delgado, minhas mãos de intestino grosso,
Mas a boca sempre seca, a garganta meio que virgem, meio que inferno,
E versos simples, simples. “A humanidade é imensa.”
Queria um poema puro.
A cara das pessoas, que coisa bela e enganada.
Alguns cães cruzam a rua, meu coração range orgânico às vezes,
É um esqueleto com artrite. Os cães são imensos, e os outros animais também,
E todos roem ossos, eu imagino. Queria um poema puro. Comer algo puro.
Eu tentei amar desesperadamente,
Tentei desesperadamente amar algo desesperadamente,
Todos tentamos, pensava, enquanto me empanturrava de comida e palavras.
Sôfrego, o corpo de arroz com feijão, a alma de frango assado,
Caí embrulhado em ônibus e carteiras de motorista,
Beijei minha mulher de tabelas e molas,
Senti os braços úmidos que me erguiam, mágico,
Em semelhança e roupas.
Tropecei nos pássaros, derramei refrigerante em meus sonhos,
Eram de carne e pano, descobri enquanto, manchados,
Eles desmanchavam em meus dedos.
Um vendaval morre em silêncio enquanto me visto, higienizado.
Outro corre vendaval, fazendo adormecer e surpreender as lavadeiras
Em meus cabelos, e o vento seca os vestidos e os molha de chuva,
E todas cantam, úmidas, algo que arde e entristece. Eu mantenho a maré,
Como quem foge de si, uma ventania que entrelaça, uma fome que se quer em jejum.
As mãos, envelhecidas, estão cheias de lâminas.
O rosto das pessoas se dilui, eu me entranho, diluído entre cachorros e multidões.
Temo tocar no rosto do menino que me sorri, e me pergunto, calado,
Se meu tato ainda reconhece pele, ou apenas coisas de número e corte…
Estamos tão pesados, meus companheiros e eu,
Ainda estamos sós, obesos de tanta esperança.
Uma epifania ao dobrar uma esquina, a morte ao provar de uma face,
Um queda lenta, como de uma folha, ao ver o sol penetrar os orifícios da rua
E me perceber morno também.
Eu desfruto de Deus, literalmente. Arranco-O em dorso e ventre, e cauda e face,
Arranco da árvore que eu amo, e como da fruta, fértil e violento,
Os dentes percorrendo o firmamento, entornando o suco, por vezes amargo,
Por vezes triste e doce, por vezes mulher lavando coisas, por vezes pai distribuindo doces,
Por vezes massa, por vezes trigo ainda,
E por vezes areia apenas.
Mas, no meio da ceia, temo comer apenas da minha própria carne e beber apenas do meu próprio sangue…
Íntimo, forte e torto segue meu grito
Em eco e invenção.
Sou metade espelho, metade anzóis.
Envolta em ácidos nucléicos e saponáceos
A mulher enxágua o vestido de flores,
As pernas, imensas, são troncos imersos na fonte.
No entanto, ela roda, bailarina, em fome e verso.
Deus também roda, num gravador,
Mas o batom nos lábios dela não desmancha com a água,
E a tintura vermelha no corpo lembra a de um índio,
Lembra um ensangüentado que tive de costurar.
Pedi água e parei a sutura. Eu banhei minhas mãos em soro,
E o sangue fluiu, diluído. Sorri debaixo da máscara.
O homem, algemado no leito, jamais partilharia dessa melancolia
Ou desse romantismo. Nem eu. Mas era meu corpo
Que saía de minha mãe naquela hora. Dois pulmões, entre bilhões.
E narinas, e veias, e artérias, e nervos, que sempre correm juntos,
Rumando para o encéfalo ou o coração.
Dizem que os rios fluem para o mar.
Devem existir exceções, eu acredito,
Mas não afirmo.
Só o que é certo é que tudo ruma,
O rosto das pessoas, o gosto das faces,
Os cães entre os carros, a vida das mães, o grito dos pais,
A dor das viúvas, o odor dos rejeitados,
O olor das vivas, o fluir das seivas e das linfas,
Os cortes, os nascimentos, as cidades, os engarrafamentos.
E algo rumando, eterno, para minha alma,
Algo sem número, cheio de olhos, algo como um polvo,
Eterno e múltiplo, pleno de mãos, túrgido de pus e de vinho,
De nádegas e de gônadas, de recifes e de carnes.
Estar preso dentro de um carro num engarrafamento
É tão fascinante quanto inventar cantos de lavadeiras abstratas.
Eu tanto ouço motores como ouço anjos,
Porque há muito do meu Deus no que se decompõe.